Coxinha da asa, drumete ou frescourisse?

Fucei um bocado para resolver esta questão quase filosófica. Afinal, apesar de humilde churrasqueiro, não sou imune a certas esquisitisses e frescourisses no uso da Língua. O frescourisses, explico adispois.

Se você está mais interessado na receita (modéstia à parte, gostosa todavida), não perca tempo. Pule algumas casas - ou os trocentos parágrafos seguintes - e vá direto à ela no final do post. No entanto, se padecer de certas agonias idiotas, aflições inexplicáveis, quase espirituais, metafísicas, típicas de quem não tem nada que preste para fazer, como este pauvre churrasquier, prossiga. Sem pular nem reclamar.

Que diabos tem a coxinha da asa do frango com essa palavra tão...feia?

Drumete sugere coisas que o pudor haveria de recatar, sob pena de desvirtuamentos pecaminosos irreversíveis, com direito a bilhete de primeiríssima classe para o Inferno. Mas, como somos adultos, e o Diabo já anda meio cansado para cuidar de almas antigas e cascudas, e almas novinhas aqui não comparecem, podemos mencionar algumas.

Drumete.

Divida essa coisa em duas.

O dru mete o quê, no quê, e de quem? E quem é o dru? O edruardo? O adrualdo? O Asdrúbal? Dru de quê, do quê, de onde, meu Deus? E esse “mete”, vem do verbo meter? Ou, numa piração, é a elisão de manete? Mas manete vem de mão, e não da coxa. Se fosse do punho, sei, não. Mesmo assim não combinaria, daria coisa pior, impublicável. Melhor parar por aqui.

Não dá agonia essa junção blasfema entre o desconhecido “dru” e o suspeito “mete”?

E num tem dicionário que chegue para dar jeito. Nem mesmo a Wiki e o deus Google conseguem defini-la. Decerto, é um termo que ainda não foi lexicografado.

Então. Pensei, deve ser mais uma das maluquices de um economista lingüístico para simplificar a relação entre significante e significado, que inventou um substantivo comum para substituir o composto. Se foi isto, mermão, vai ter mal gosto assim em Beijing, outra modinha bacana, muito atual, adotada por alguns idiotas para significar, em bom Português, a velha Pequim.

(Aliás, Beijing é o cacete! Num parece beijinho? E não me venham com pernosticismos. O sistema “pinyin”, criado pelo governo chinês para padronizar a transliteração dos caracteres chineses para os do alfabeto romano - e facilitar o aprendizado do Mandarim - não tem o poder de transformar, em Português, a velhíssima Pequim em Beijing. A não ser para os macacos-culturais.)


Esta foi a pista. Não para resolver o mistério, mas para aumentá-lo.

Lembrei de Nélson Rodrigues e da sua impagável definição de um dos piores estados de espírito nacional: o complexo de vira-latas, que se reflete bem no nosso fanatismo por estrangeirismos. E também do Fraga. Antonio Fraga, autor dum fascinante livro titulado “Desabrigo”. Atualíssimo, escrito em 42 do século findo. Se você não leu, perdeu. Corra para a primeira livraria e garimpe e se divirta até morrer de rir ou de chorar de emoção e de raiva. Fraga, um monstro literário, é um desses vergonhosos assassinatos culturais perpetrados por nossas zelites-de-merda Morreu na miséria, encafifado numa casinha simples, uma cidade periférica do Rio, Belford Roxo, na companhia de sua amada companheira.

Parti de um princípio meio idiota, mas lógico. Temos uma antiga e forte herança no uso do Francês Daí, algumas palavras terminadas em “éte” sugerirem a intuições mais desavisadas uma suposta origem francesa de certos vocábulos. Por associação, lembrei também que, no outrora dos outroras, certas meninas de vida oblíqua, nem todas francesas, e cuja alma Tolouse Lutrec descortinou como ninguém, adotavam nomes como Ninete, Paulete... para atuarem com mais proficiência no velhíssimo mercado do amor a dinheiro.

A esta altura, resta-me a certeza de que pirei de vez...

Mas não acreditei muito na hipótese. Se houvesse alguma ligação entre drumete e a língua francesa, este seria grafado, por força da lógica intuitiva e burra já mencionada, de um jeitinho mais refinado e chic (porque chique não é de bom tom, claro).

Que tal “droùmet”, com acento grave no “u” e “t” mudo? Num fica mais elegante?

Bingo! Ou quase bingo. Atirei no que vi e acertei no que não vi, piorando o mistério.

Um asnô brasileiro - forma afrancesada de asno, que serve também para apelidar pretensiosos “chefs de cuisine” -, inconformado com a forma “drumete”, muito aportuguesada, abriu um “verbet” (não resisto) na Wiki para registrar a coxinha da asa como “Drumet”. Só não disse como pronunciá-la.

Será drumê, drumé, ou com um suave e quase mudo “t” para fazer biquinho, com ar blasè?

Né coisa de doido?:

Além de criamos palavras esquisitas em suposto português, conseguimos enfia-las em outras línguas à guisa de finesse e elegância. ! Lindo, lindo, lindo!

Ou lindô?

O frescourisses lá no início, creio, está explicado.


Agora, que já sabemos nada de nada sobre drumete, drumet, droùmet ou o diabo que o seja, cuidemos da coxinha da asa.

A receita, ressalvado o sagrado direito do cliente exigir outro tipo de tempero, faço em todos os churrascos. Um sucesso danado. Dá para fazer na brasa ou no forno. Fique à vontade.

Ingredientes:

1 kg de coxinhas da asa
75ml de molho shoyo de qualidade. Se comprar do vagabundo, juro, vai se arrepender.
6 dentes de alho bem socados
1 limão em suco. Despreze a casca, por favor.
Cominho - Atenção, pelamordedeus, jamais “a gosto”. Se puser demais vai ser um desgosto do cão. Só um cheirinho lá longe tá bom. (E tem gente que odeia, afirmam que esta iguaria recende a... sovacos suados.) Se não quiser, não ponha. Me dei conta que talvez seja o único doido na face da Terra que faz referência tão nojenta numa receita culinária.
Pimenta do reino - com igual comedimento e, se gostar.
Alecrim - Outro problema. Lembre-se que você está fazendo comida, não uma essência de perfume ou um desses defumadores usados em igrejas e centros de macumba.
Gengibre raspado - uma colher de sobremesa rasa ta de bom tamanho (ou quantidade)
Sal fino - uma colher de sopa bem cheia.

Extra: se quiser uma coxinha bem safadinha, coloque uma colher de sobremesa rasa de pimenta calabresa. Fica, literalmente, o bicho!

Lembre-se de um velho versinho do Ceguinho: “Temperança e comedimento não é exagero no tempero ou no condimento”. Horrível, mas é batata!

Modo de temperar.

Lave bem o frango, porque a higiene é uma virtude muito apreciada e também porque Deus ajuda muito quem é limpinho.

Deite as coxinhas numa vasilha. Em outra, menor, ponha os temperos todos à sua ordem ou à ordem qualquer. Adicione a colher de sopa de sal sem pena. Não se preocupe. A carne do frango, sabe-se lá por qual mistério, não pega sal rapidamente. Misture bem. Cuidado: não espere o alecrim dissolver porque ele não dissolve, viu?

Pronta a marinada, dê um gostoso banho nas coxinhas (do frango, viu?) misturando bem. Se você achar que tem pouco líquido, não bobeie nem titubeie. Acrescente mais um pouco de shoyo e um copinho d’água, para as indigitadas coxinhas ficarem quase submersas. Deixe-as descansar por umas duas horinhas e vá tratar de fazer outras coisas, porque a roda gira e o churrasco tem que sair.

Já fez?

Bote agora as coxinhas na brasa, em distância média. Nem no poleiro nem próximo do calor. Não me pergunte o tempo. Elas douram rápido por causa do shoyo, mas demoram a assar. Dourou? Passe para o andar de cima. Quanto tempo para ficarem prontas? De novo?
Aprenda uma regra: churrasqueiro não tem relógio nem cronômetro. Tem olhos e um garfo esperto. Mesmo o Ceguinho. São eles que dizem quando ainda estão cruas, no ponto ou queimadas.

Observação, dois pontos: Caso você queria temperar as coxinhas de um dia para o outro, ponha apenas a terça parte do sal ou nem ponha. O molho shoyo já é bem salgado.

Ao revoár et merci, monsiês e mádam’s...

6 comentários:

Camilo disse...

Vou testar essa receita no meu próximo churrasco. Não gosto muito de usar outros temperos, fora o clássico sal grosso. Mas as 'drumetes' não ficam boas apenas com sal.
Ah, e concordo plenamente: churrasqueiro não tem relógio, é no olho mesmo e no garfo para testar.

Ricardo disse...

Você não vai se arrepender.
O sal grosso vale para a carne bovina. Nas outras, um temperinho cai muito bem.
Também sou fã da coxinha temperada apenas com sal e limão.
Abraços

Ira disse...

Cara, não sou churrasqueira. Apenas procurava por uma receita para minhas coxinhas (de frango, tá) que havia cozinhado para o almoço e percebendo que aquela pele não fica crocante, como deveria ser, e não querendo fritá-las como da última vez que até o passarinho na área de serviço próxima ficou engordurado,vim passear no Google para achar alguma idéia e encontrei teu blog. Achei divertidíssimo, adoro bom humor. Parabéns pelo texto e receita que parece tão boa quanto. Passo a bola para o meu cunhado testá-la.
Parabéns!

Ricardo disse...

Olá, Ira.

Obrigado pelo seu comentário irado. O ego foi lá em Beijing...
Só fiquei com pena do passarinho, coitadinho. Quando fizer frituras, retire o bicho da área!

A crocância não é difícil. Experimente utilizar a mesma técnica do leitão à pururuca.

A receita faz sucesso e não tem mistério. Seu cunhado vai gostar. E você também!

Abraços.

Anônimo disse...

Cara, as receitas são formidáveis. Mas nada comparado à explosão filosófica. Veia de churraqueiro e poeta. Parabéns!

Creuza Moura disse...

Olá,ri muito ao longo deste post por ser o teu questionamento muito parecido com os que tenho por aqui.
as analogias com coisas nojentas e que fazem a diferença sacou?!

Adorei a receita, vou testa-las amanhã mesmo, ficaram apenas duas perguntas.

o que é molho Shoyo de qualidade? (confesso que quase não uso por que é um gatilho para minha enxaqueca, será que é porque usei de má qualidade?)

indica um bom por favor?

Muito legal o seu blog já esta no meu reader para acompanhamento.
Ah cheguei aqui pelo link no blog Deusa domestica